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As tarifas de Trump e o anúncio de uma nova ordem económica mundial

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O objectivo normal das tarifas alfandegárias sobre produtos importados é o de assegurar, a alguns sectores da economia, a capacidade para manterem níveis de produção e de preços acima do que seriam capazes em situação de livre concorrência no mercado mundial. A eficácia das tarifas para a prossecução desse objectivo é maior nas indústrias novas e em crescimento, e resulta mais dificilmente nas indústrias em declínio, nas quais o incentivo a novos investimentos é fraco. As tarifas de Trump têm a característica peculiar de se aplicarem a todos os produtos importados pelos Estados Unidos, provenientes de um vasto número de países.  Através da sua tabela de tarifas, Trump pretende alcançar um objectivo extremamente ambicioso, que é o de corrigir o défice das transacções correntes dos EUA com o exterior, que persiste, de forma crónica, desde há mais de sessenta anos, e que anda actualmente em torno dos 800 mil milhões de dólares anuais, o que contrasta com os excedentes na China, de 4...

Os bancos e os seus devedores numa visão shakespeareana

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Shylock, personagem do Mercador de Veneza  de Shakespeare    O Mercador de Veneza é uma   comédia de Shakespeare, ou talvez seja também uma tragédia, dependendo da condição em que   cada um dos seus personagens   se situa no drama, que merece ser analisada à luz da moderna teoria económica. Comecemos pelo contexto histórico. O enredo decorre em Veneza, no século XVI. Nessa época, a zona de prosperidade na Europa  deslocava-se da bacia do Mediterrâneo para a Flandres, Inglaterra e norte da Alemanha. Essas regiões da Europa eram mais férteis do que as da Europa mediterrânica, o que favorecia o maior crescimento demográfico. Por outro lado, as grandes viagens marítimas iniciadas por portugueses e espanhóis, seguidos pelos ingleses e holandeses,    contribuíram para dar uma dimensão intercontinental às grandes feiras e   portos existentes no norte da Europa, bem como para o ressurgimento da actividade bancária, donde emergiram os primeiros g...

Confiar nos economistas é entregar a alma ao diabo

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  Reencontrei um texto meu, saído no Público em 2015,  no qual explicava as vantagens que a extensão do prazo das dívidas apresentava,  no contexto da  época, tanto para os devedores como para os bancos. O texto em si, é hoje apenas uma curiosidade histórica. O que eu achei divertido foi reler os comentários, que devem servir  para,   quem  for  economista, pensar bem antes de dar conselhos a alguém. Aqui fica o texto, seguido dos três  comentários. A extensão do prazo das dívidas aos bancos, o aumento dos  spreads  e a racionalidade económica O aumento de diversos tipos de risco, que tem ocorrido no crédito hipotecário, pode sugerir que há um propósito menos evidente nesta iniciativa da banca.  Esta iniciativa é vista, por alguns sectores de opinião, como um expediente desleal através do qual os bancos visariam apenas aumentar os seus ganhos à custa dos devedores, os quais só terão a perder com a alteração dos contra...

O Relatório Draghi e a Europa do nosso descontentamento

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                                                         O relatório de   Mario Draghi, The Future of European Competitiveness , publicado em Setembro passado, é   invocado como o documento orientador para que a União Europeia atinja os   objectivos de colmatar o atraso   de inovação que a separa dos Estados Unidos e da China, dar seguimento ao processo de descarbonização e de   aumento da competitividade, e reduzir a sua dependência face aos Estados Unidos em matéria de defesa.   Esse relatório sustenta que o atraso tecnológico da Europa face aos Estados Unidos e à China se observa essencialmente no domínio das tecnologias de informação e computação, e não   tanto nos restantes sectores de actividade. No entanto, na comparação entre a produtividade da União Europeia e os EUA, para um conjunto de vinte e um s...

A TAP: privatização, nacionalização e reprivatização, ou o regresso a um assunto que merece ser discutido

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  Há alguns meses, quando a questão da privatização, nacionalização, e previsível reprivatização da TAP, estava em acesa discussão, tanto no meio político, como no meio jornalístico, tentei descrever, através duma pequena metáfora, as consequências da privatização  levada a cabo pelo XIX Governo Constitucional. Por qualquer circunstância, relembrei-me da metáfora,  e entendi que o tema merecia que lhe desse novamente atenção.  No momento da sua privatização anterior, a TAP necessitava de capital para substituir dívida nas fontes de financiamento, dado que os encargos com dívida excessiva estavam a agravar a dificuldade da empresa em obter resultados de exploração positivos. O que aconteceu na época foi que a entrada de capital não só foi insuficiente para estabilizar financeiramente a empresa, como, o que ainda é pior, veio acompanhada do compromisso de aumento do endividamento para compra de mais aviões. Com efeito, como é do conhecimento corrente, o accionista estr...

O BCE e o paradoxo de Malestroit

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  Jean de Malestroit foi um conselheiro do Tribunal de Contas de França do século XVI, que ficou conhecido por explicar a inflação observada na sua época como sendo o resultado da desvalorização da unidade de conta, a libra  tornês, em relação ao ouro e à prata em que eram cunhadas as moedas usadas nas trocas. Argumentava o  conselheiro que os preços em unidades de conta de todos os bens, incluindo o ouro e a prata, subiam na mesma proporção, e daí resultava que a quantidade de ouro e de prata com que se compravam  os bens não se alterava. A conclusão de  Malestroit era um paradoxo, na medida em que admitia  que os preços de todos os bens podiam subir sem que fosse necessário o aumento da quantidade de moeda metálica, para alimentar essa subida. A favor da argumentação de Malestroit estava o facto de, em períodos anteriores, terem ocorrido processos de desmaterialização da moeda que consistiam em, com a mesma quantidade de metal precioso, cunhar moedas de v...

The dollar on the path to the end of its imperial era

  To get a preliminary understanding of the evolution of the American economy within the global context, we can rely on two important indicators: GDP growth and the current account balance. The GDP of the United States currently represents 26.3% of the world GDP, while China's accounts for 16.9%. In contrast, China’s GDP grew at an average annual rate of 13.27% between 2005 and 2020, while the American GDP only grew at an average rate of 3.2% during the same period. This implies that if this differential in average growth rates persists in the future, China's GDP will surpass that of the United States within five years. Based on the projected growth rates for the coming years, which are 1.7% for the U.S. and 5.2% for China, it is estimated that China will exceed the U.S. GDP around 2037, although some calculations suggest this could happen as early as 2035. It is also anticipated that once it surpasses the U.S., China will lead global GDP for the next forty years. Even more con...

O dólar a caminho do fim da sua era imperial

  Para termos uma ideia, ainda que sumária, do que será a evolução da economia americana no contexto mundial, podemo-nos apoiar em dois indicadores importantes: a evolução do PIB e o saldo da balança corrente. O PIB dos Estados Unidos representa actualmente 26,30% do PIB mundial,  e o da China 16,9%. Em contrapartida, o PIB chinês, cresceu, entre 2005 e 2020, à taxa média anual de 13,27%, enquanto o PIB americano cresceu apenas à taxa média de 3,2% durante esse mesmo período. Isto implica que, se este diferencial de taxas de crescimento médias se mantivesse no futuro, o PIB da China ultrapassaria o dos Estados Unidos dentro de 5 anos. Tomando como referência as taxas de crescimento previstas para os próximos anos, que são de 1,7% para os Estados Unidos  e 5,2% para a China, esta ultrapassará aquele por volta de 2037, embora alguns cálculos apontem para que tal aconteça em 2035.  Prevê-se também que, quando  ultrapassar os EUA, a China irá liderar o PIB mundial d...

Fundamentos económicos e benefícios de uma taxa sobre a floresta

  Em Portugal a floresta ocupa mais de um terço do território continental, isto é, cerca de 3,3 milhões de hectares, dos quais   56% estão ocupados por espécies que apresentam elevado risco de incêndio: 30% em pinheiro bravo, o que corresponde a 1,1 milhões de hectares, e 26% em eucalipto, o que abrange 0,865 milhões de hectares. A floresta, no seu todo, contribui para cerca de 1,5% do PIB português. Isto implica, se repartirmos esse contributo proporcionalmente à área coberta por cada espécie,   que o pinheiro bravo contribui com 1215 milhões de euros para o PIB, e o eucalipto com cerca de 1053 milhões, o que dá um valor anual de 1225 euros por hectare de eucaliptal, não muito diferente daquele a que chegaríamos se tomássemos   o preço de mercado actual da madeira de eucalipto como ponto de partida. Segundo o   Instituto da Conservação da Natureza e Floresta,   as perdas por incêndios florestais, pragas e invasoras exóticas   ronda...

O sistema monetário europeu na Constituição portuguesa: desajustamentos em relação à realidade e anacronismos

  Vinte cinco anos após a criação do euro, do qual Portugal    foi um dos países fundadores, ainda permanecem na Constituição portuguesa artigos cujo enunciado    contém desajustamentos e anacronismos relativamente ao sistema monetário em que    o país está inserido. A nossa Constituição parece estar isolada neste tipo de falhas, quando a comparamos com as constituições dos principais países da zona euro, o que não deixa de ser indesejável, mesmo que    seja reduzido o risco de    daí    resultar outra legislação que colida com normas da União Monetária Europeia. Merecem atenção, em primeiro lugar,    os artigos 101º    e    102º, que fazem parte do Título IV (Sistema Financeiro e Fiscal),    da Parte II (Organização Económica). O artigo 101º da Constituição tem o seguinte enunciado: “ O sistema financeiro é estruturado por lei, de modo a garantir a formação, a captação e a segurança...

A guerra da Ucrânia, a União Europeia e a tragédia das grandes potências

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  A generalidade das abordagens à guerra da Ucrânia assenta nos   pressupostos   de que o direito internacional e os tratados estão no centro das relações internacionais, e de que a criação de regimes democráticos é suficiente para evitar conflitos entre as grandes potências.   Esta perspectiva,   sustentada entre outros, por Francis Fukuyama da Universidade de Stanford, e autor do blogue American Purpose , atribui a principal causa da guerra da Ucrânia à   existência de um regime despótico na Rússia. Daqui se parte para a conclusão de que a única forma de ajudar a Ucrânia é dar-lhe total apoio militar até que consiga a vitória sobre a Rússia, que consistirá em expulsá-la de todo o seu território. Só que os factos estão a evoluir num sentido que faz com que esse objectivo pareça cada vez mais improvável de alcançar. Daí que seja legítimo questionar-se a capacidade da estratégia baseada neste tipo de argumentação para pôr termo a esta guerra. A esta visão ...