A guerra da Ucrânia, a União Europeia e a tragédia das grandes potências

 


A generalidade das abordagens à guerra da Ucrânia assenta nos  pressupostos  de que o direito internacional e os tratados estão no centro das relações internacionais, e de que a criação de regimes democráticos é suficiente para evitar conflitos entre as grandes potências.  Esta perspectiva,  sustentada entre outros, por Francis Fukuyama da Universidade de Stanford, e autor do blogue American Purpose, atribui a principal causa da guerra da Ucrânia à  existência de um regime despótico na Rússia. Daqui se parte para a conclusão de que a única forma de ajudar a Ucrânia é dar-lhe total apoio militar até que consiga a vitória sobre a Rússia, que consistirá em expulsá-la de todo o seu território. Só que os factos estão a evoluir num sentido que faz com que esse objectivo pareça cada vez mais improvável de alcançar. Daí que seja legítimo questionar-se a capacidade da estratégia baseada neste tipo de argumentação para pôr termo a esta guerra.

A esta visão liberal, ou utópica, das relações internacionais, opõe-se a visão realista proposta por John Mearsheimer da Universidade de Chicago, no seu livro The Tragedy of Great Powers,  para quem  as relações internacionais se caracterizam pelos seguintes aspectos essenciais: 1) a inexistência de uma entidade supra-nacional  com capacidade para manter a paz; 2)  o poder das grandes potências é determinado sobretudo pela sua capacidade militar; 3) cada estado  depara-se com incerteza quanto às intenções dos restantes. A perspectiva realista sustenta que as grandes potências  dominam e moldam as relações internacionais, e que a incerteza quanto às intenções dos rivais as conduz a tentarem ter o máximo de poder e,  se possível,  a tornarem-se  hegemónicas, como meios para assegurarem a sua auto-protecção.  Em caso extremo, a prossecução destes objectivos conduz à guerra, e esta pode ser desencadeada independentemente do sistema político, despótico ou democrático, da grande potência. Esta abordagem permite compreender melhor a guerra da Ucrânia, do que a visão liberal, porque explica a atitude da Rússia, após a enorme derrota que sofreu quando o fim da  Guerra Fria  conduziu à  extinção do Pacto de Varsóvia e, o que foi mais grave para esse país,  à  fragmentação da União Soviética. Esse significativo enfraquecimento da Rússia permitiu o aumento do poderio dos Estados Unidos. O  alargamento da NATO para leste da Europa, aproximando-se das fronteiras da Rússia, que podemos ver como  consequência natural do enfraquecimento desta, se nos colocarmos na perspectiva do realismo ofensivo de Mearsheimer, mereceu algumas reservas de dirigentes políticos americanos, como o antigo embaixador desse país na NATO, Ivo Daalder, o qual, segundo um artigo do The Economist, publicado em Abril de 2022, entendia que o alargamento da NATO, não deveria ter ido  tão longe porque, em vez de ter servido para enfraquecer a Rússia, como era o seu propósito, acabou por servir para a provocar. As mesmas preocupações foram partilhadas por Fukuyama.

Desde o início desta guerra, e até uma data muito recente, o governo americano tem libertado fundos avultados que permitem à Ucrânia fazer face ao conflito, ao mesmo tempo que a sua retórica oficial  se baseia na perspectiva liberal das relações internacionais, o que é compreensível, dado que esta oferece um suporte moral às suas posições, que  está ausente da perspectiva realista. É preciso, no entanto, ter em conta que, como escreve Mearsheimer no seu livro,  que foi editado em 2004, isto é, muito antes desta guerra, o governo americano usou sempre a retórica liberal em relação aos conflitos internacionais, mas baseou na abordagem realista as decisões que puseram fim a esses conflitos. Um dos grandes  exemplos dessa prática foi o acordo de partilha da Europa, celebrado por Roosevelt e Churchill com Estaline, no fim da II Guerra Mundial. Outro exemplo foi o acordo que pôs fim à guerra do Vietname.

Enquanto a retórica liberal domina  o discurso oficial de Washington sobre a guerra da Ucrânia,  é  a abordagem realista que serve de base à explicação desta guerra nas  instituições de investigação sobre questões estratégicas e de relações internacionais  pertencentes  ao governo americano, ou por ele financiadas.  Um exemplo do recurso à perspectiva realista é a análise de  Anthony Cordesman, investigador emérito do Center for Strategic and International Studies, falecido  há muito poucos dias, no documento United States Aid to Ukraine: an Investment whose Benefits Greatly Exceed its Cost, publicado em Novembro de 2022. Nesse documento, o autor destacou entre os vários benefícios desta guerra para os  Estados Unidos, o seu fortalecimento relativamente à Rússia,  que suporta custos muito  elevados e dele sairá enfraquecida qualquer que seja o desfecho, mas também em relação à China, o que é  relevante neste mundo tripolar de potências militares.  Curiosamente, nesse mesmo documento, o autor revelava que a administração Biden exerceu alguma influência discreta junto de Zelensky, para o convencer a aceitar uma paz sem recuperação dos territórios ocupados pela Rússia, e sem que esta fosse obrigada  a reparações nem a julgamentos por crimes de guerra. Refere igualmente conversações que, nesse sentido, terão sido conduzidas entre o conselheiro de segurança da Casa Branca, Jack Sullivan, e funcionários da administração de Putin. Nesse documento é também referido o cepticismo do general Mark Milley, chefe do Pentágono, quanto à capacidade da Ucrânia para recuperar território.

No contexto actual, em que, pelas razões conhecidas, o apoio dos Estados Unidos à manutenção da guerra na Ucrânia foi interrompido, cabe perguntar aos dirigentes da União Europeia se têm em agenda algum plano que lhe  permita pôr fim, poupando o povo ucraniano a mais destruição e sofrimento, e libertando as economias europeias dos efeitos negativos do conflito. É que continuar a atirar com milhares de milhões de euros para que a Ucrânia compre mais armas, acompanhados da promessa de que um dia, talvez, sabe-se lá bem quando, poderá entrar na UE,  só por má fé cínica ou obtusidade da córnea (com a devida vénia a   Eça de Queirós, que  usou esta expressão numa polémica com Machado de Assis) se pode afirmar que seja o caminho para pôr termo a esta guerra.

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