A União Europeia e os limites da sua capacidade de expansão

 

O bom funcionamento de qualquer união económica depende, em larga medida, da sua capacidade gravitacional, isto é, da força de atracção exercida por uma economia de grande dimensão que funcione como centro de gravidade dos fluxos comerciais e financeiros da união. Essa ideia é sustentada pelo modelo gravitacional do comércio internacional desenvolvido pelos economistas Elhanan Helpman e Paul Krugman. Este  modelo toma como ponto de partida a verificação de que o volume de trocas entre dois países é tanto maior quanto maior for a dimensão das suas economias e quanto menor for a distância entre elas. No caso da União Europeia, o centro gravitacional é a economia alemã, e o volume de transações comerciais e de fluxos de capitais  entre a Alemanha e os restantes Países-membros é o elemento fundamental para a manutenção da estabilidade do espaço europeu. Os fluxos comerciais e financeiros bilaterais entre os restantes países também são importantes para a manutenção da coesão do espaço económico europeu, mas não conseguem compensar completamente uma diminuição acentuada da capacidade de atracção gravitacional da Alemanha, cujo peso no PIB da União Europeia anda perto de 30%. Após a II Guerra Mundial, apesar de derrotada e dividida, a Alemanha conseguiu, em menos de vinte anos, restabelecer o seu domínio económico sobre a restante Europa Ocidental, e tal aconteceu por várias ordens de razões. Em primeiro lugar,  porque era a maior economia industrial da Europa, desde o século XIX. Em segundo lugar, porque o regime nazi, através do seu comportamento de pilhagem, permitiu à grande indústria alemã o acesso a baixo custo a recursos naturais como o carvão e o ferro da Alsácia-Lorena, que desde o século XIX disputou com a França, e  a mão-de-obra gratuita, deslocada à força de vários países da Europa.  Em terceiro lugar, a produção de armamento, e material afim, propiciou às  grandes empresas alemãs da siderurgia, da metalurgia e da construção de viaturas, entre outros, a acumulação de grandes lucros, que guardaram em  lugar seguro, e que serviram para financiar a reindustrialização do pós-guerra, alavancados com os fundos do plano Marshall. A estas condições junta-se o facto de, no fim da II Guerra Mundial, os vencedores não terem imposto à Alemanha o pagamento de indemnizações de guerra.  No fim da Primeira, pelo contrário, tinha sido imposto à Alemanha, no Tratado de Versalhes, o pagamento de indemnizações de tal forma penalizadoras, que o economista inglês John Maynard Keynes se insurgiu contra elas, dizendo que iriam conduzir esse país  a desencadear uma segunda guerra, como veio a acontecer.
O Leste europeu foi, no pós-guerra, dominado pela União Soviética, cuja economia, pela sua dimensão e estrutura, tinha fraca capacidade de atracção gravitacional sobre os países que estiveram na sua área de influência até ao seu colapso, no final dos anos 80.  A mudança de sistema económico e político, que então ocorreu nesses países,  abriu caminho ao alargamento da União Europeia. Como esse alargamento ocorria  em territórios que pertenceram a outra área geopolítica, fazia-se sobre a protecção da NATO, cuja expansão para leste oferecia um novo e significativo mercado à indústria militar dos Estados Unidos, da Inglaterra, da França, da Alemanha e de outros  países.  O alargamento da União Europeia para leste, incorporando economias com níveis de desenvolvimento diversos e situadas em espaços geográficos cada vez mais distantes entre si, afectou, como é natural, a força gravitacional dentro desse espaço.  Tudo parecia correr no melhor dos mundos quando,  após a entrada na União Europeia de países como a Hungria e a República Checa, aí afluíam não só fundos europeus, mas também avultados investimentos directos e financeiros, provenientes sobretudo da Alemanha e da Suécia, os quais possibilitaram o aumento significativo das taxas de crescimento do PIB desses países. Só que os fluxos de investimento não perduram eternamente em montante elevado, e os desentendimentos entre vários governos do Leste  e a Comissão Europeia dão mostras de que há hoje algum grau de insatisfação quanto aos benefícios da sua integração na União Europeia. As razões são  diversas e variam de país para país. Mas o traço comum a  esses países é que, em  todos eles, o PIB per capita em paridades de poder de compra está abaixo da média da União Europeia (índice 100).  Com a excepção da Grécia,  todos os países  abaixo de Portugal (82) são do Leste europeu: Estónia,  Polónia e Roménia (79),  Croácia e Hungria (77), Eslováquia (75), Letónia (71) e Bulgária (66).  Pelo contrário, todas as economias do Centro e Norte da Europa apresentam valores do índice acima de 100. Este contexto não é alheio às dificuldades de entendimento entre  as instituições da União Europeia e os governos de alguns países do Leste, como a Hungria e a Eslováquia. A situação pode mesmo agudizar-se quando, após o fim da guerra da Ucrânia, se colocar a questão de como vai ser financiada a integração deste país e a sua reconstrução. As circunstâncias com que as instituições europeias se defrontam, em relação ao Leste europeu, merecem que recordemos a atitude de  Bismarck, chanceler da Prússia e, depois, da Alemanha unificada, na segunda metade do século XIX, para quem o seu país não se devia envolver com os países eslavos do Este e Sudeste Europeu. Sempre que a Alemanha abandonou a prudência bismarckiana,  as consequências não foram boas, como a História nos ensina.  Com algum optimismo talvez possamos acreditar que,  desta vez, a História não se repete, ao contrário do que dizia o aforismo de Marx, e que os problemas a Leste não virão a tornar-se uma causa de desgaste e enfraquecimento  das instituições europeias. O futuro o dirá!

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