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O euro digital, o ministro grego, e a dissonância entre o discurso e a realidade

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  O ministro das Finanças da Grécia e actual líder do Eurogrupo, Kyriakos Pierrakakis, declarou recentemente, num Fórum do Banco Europeu de Investimento,   que o euro digital, em preparação   no   Banco Central Europeu, e que, segundo ele diz, começará   a ser emitido em 2029, é uma iniciativa fundamental para a capacidade competitiva da União Europeia e para a sua independência estratégica. Quem, ao longo da última meia dúzia de anos, tiver seguido cuidadosamente o processo preparatório   da criação de moeda digital, em curso no BCE e em muitas dezenas   de bancos centrais do resto do   mundo, não pode deixar de ficar surpreendido ao ver um alto responsável europeu expressar tão ambiciosas expectativas acerca dos efeitos dessa   inovação.   Vejamos em primeiro lugar do que falamos, quando falamos do euro digital, que é um caso particular de moeda digital do banco central ou,   se quisermos usar a   designação internacional cor...

Divagando entre Eça de Queirós e Gilberto Freyre, a partir dum discurso presidencial

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No seu último discurso de Ano Novo, enquanto Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa brindou-nos com a leitura dos últimos parágrafos do romance A Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós. Ouvir essa leitura despertou o meu interesse por várias razões, uma das quais é o facto de o personagem central desse romance, Gonçalo Mendes Ramires, ser a figura da obra queirosiana que me inspirou mais simpatia, bem mais do que o diletante personagem central de Os Maias, ou o afrancesado Jacinto, da Cidade e as Serras. Gonçalo Ramires é um descendente da antiga e decadente aristocracia rural, que se defronta com o dilema entre casar com uma viúva nova-rica, para se proteger da ruína, ou optar por aquilo que podemos designar, em termos aristotélicos, uma vida boa, mas com privações materiais. Outra particularidade que, no plano pessoal, me liga a esse romance, está no facto de um colega inglês, professor numa universidade americana, que costumava encontrar em congressos da nossa área co...

A União Europeia e os limites da sua capacidade de expansão

  O bom funcionamento de qualquer união económica depende, em larga medida, da sua capacidade gravitacional, isto é, da força de atracção exercida por uma economia de grande dimensão que funcione como centro de gravidade dos fluxos comerciais e financeiros da união. Essa ideia é sustentada pelo modelo gravitacional do comércio internacional desenvolvido pelos economistas Elhanan Helpman e Paul Krugman. Este  modelo toma como ponto de partida a verificação de que o volume de trocas entre dois países é tanto maior quanto maior for a dimensão das suas economias e quanto menor for a distância entre elas. No caso da União Europeia, o centro gravitacional é a economia alemã, e o volume de transações comerciais e de fluxos de capitais  entre a Alemanha e os restantes Países-membros é o elemento fundamental para a manutenção da estabilidade do espaço europeu. Os fluxos comerciais e financeiros bilaterais entre os restantes países também são importantes para a manutenção da coesã...

O mercado da habitação: as anomalias e a intervenção do Estado

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  O mercado da habitação tornou-se, nas últimas décadas, um dos sectores mais tensos e controversos das economias contemporâneas. Em muitas cidades os preços das casas e das rendas cresceram a ritmos bem superiores aos rendimentos médios das famílias, contribuindo para fenómenos de exclusão habitacional, sobrecarga financeira e deslocamento de populações de baixos rendimentos para zonas periféricas. São vários os factores que fazem com que  no mercado da habitação se observe um desequilíbrio estrutural caracterizado pela escassez de oferta, situação que tende a prolongar-se por largos períodos, ao contrário de outros mercados de bens e serviços, onde o ajustamento entre oferta e procura ocorre com relativa rapidez. A construção de novas habitações implica um longo ciclo de planeamento, licenciamento e execução, que dura vários anos. Isto significa que, mesmo quando há sinais claros de aumento da procura, a oferta não consegue responder de imediato. A rigidez e atraso na respos...

As tarifas de Trump e o anúncio de uma nova ordem económica mundial

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O objectivo normal das tarifas alfandegárias sobre produtos importados é o de assegurar, a alguns sectores da economia, a capacidade para manterem níveis de produção e de preços acima do que seriam capazes em situação de livre concorrência no mercado mundial. A eficácia das tarifas para a prossecução desse objectivo é maior nas indústrias novas e em crescimento, e resulta mais dificilmente nas indústrias em declínio, nas quais o incentivo a novos investimentos é fraco. As tarifas de Trump têm a característica peculiar de se aplicarem a todos os produtos importados pelos Estados Unidos, provenientes de um vasto número de países.  Através da sua tabela de tarifas, Trump pretende alcançar um objectivo extremamente ambicioso, que é o de corrigir o défice das transacções correntes dos EUA com o exterior, que persiste, de forma crónica, desde há mais de sessenta anos, e que anda actualmente em torno dos 800 mil milhões de dólares anuais, o que contrasta com os excedentes na China, de 4...

Os bancos e os seus devedores numa visão shakespeareana

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Shylock, personagem do Mercador de Veneza  de Shakespeare    O Mercador de Veneza é uma   comédia de Shakespeare, ou talvez seja também uma tragédia, dependendo da condição em que   cada um dos seus personagens   se situa no drama, que merece ser analisada à luz da moderna teoria económica. Comecemos pelo contexto histórico. O enredo decorre em Veneza, no século XVI. Nessa época, a zona de prosperidade na Europa  deslocava-se da bacia do Mediterrâneo para a Flandres, Inglaterra e norte da Alemanha. Essas regiões da Europa eram mais férteis do que as da Europa mediterrânica, o que favorecia o maior crescimento demográfico. Por outro lado, as grandes viagens marítimas iniciadas por portugueses e espanhóis, seguidos pelos ingleses e holandeses,    contribuíram para dar uma dimensão intercontinental às grandes feiras e   portos existentes no norte da Europa, bem como para o ressurgimento da actividade bancária, donde emergiram os primeiros g...

Confiar nos economistas é entregar a alma ao diabo

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  Reencontrei um texto meu, saído no Público em 2015,  no qual explicava as vantagens que a extensão do prazo das dívidas apresentava,  no contexto da  época, tanto para os devedores como para os bancos. O texto em si, é hoje apenas uma curiosidade histórica. O que eu achei divertido foi reler os comentários, que devem servir  para,   quem  for  economista, pensar bem antes de dar conselhos a alguém. Aqui fica o texto, seguido dos três  comentários. A extensão do prazo das dívidas aos bancos, o aumento dos  spreads  e a racionalidade económica O aumento de diversos tipos de risco, que tem ocorrido no crédito hipotecário, pode sugerir que há um propósito menos evidente nesta iniciativa da banca.  Esta iniciativa é vista, por alguns sectores de opinião, como um expediente desleal através do qual os bancos visariam apenas aumentar os seus ganhos à custa dos devedores, os quais só terão a perder com a alteração dos contra...

O Relatório Draghi e a Europa do nosso descontentamento

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                                                         O relatório de   Mario Draghi, The Future of European Competitiveness , publicado em Setembro passado, é   invocado como o documento orientador para que a União Europeia atinja os   objectivos de colmatar o atraso   de inovação que a separa dos Estados Unidos e da China, dar seguimento ao processo de descarbonização e de   aumento da competitividade, e reduzir a sua dependência face aos Estados Unidos em matéria de defesa.   Esse relatório sustenta que o atraso tecnológico da Europa face aos Estados Unidos e à China se observa essencialmente no domínio das tecnologias de informação e computação, e não   tanto nos restantes sectores de actividade. No entanto, na comparação entre a produtividade da União Europeia e os EUA, para um conjunto de vinte e um se...

A TAP: privatização, nacionalização e reprivatização, ou o regresso a um assunto que merece ser discutido

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  Há alguns meses, quando a questão da privatização, nacionalização, e previsível reprivatização da TAP, estava em acesa discussão, tanto no meio político, como no meio jornalístico, tentei descrever, através duma pequena metáfora, as consequências da privatização  levada a cabo pelo XIX Governo Constitucional. Por qualquer circunstância, relembrei-me da metáfora,  e entendi que o tema merecia que lhe desse novamente atenção.  No momento da sua privatização anterior, a TAP necessitava de capital para substituir dívida nas fontes de financiamento, dado que os encargos com dívida excessiva estavam a agravar a dificuldade da empresa em obter resultados de exploração positivos. O que aconteceu na época foi que a entrada de capital não só foi insuficiente para estabilizar financeiramente a empresa, como, o que ainda é pior, veio acompanhada do compromisso de aumento do endividamento para compra de mais aviões. Com efeito, como é do conhecimento corrente, o accionista estr...

O BCE e o paradoxo de Malestroit

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  Jean de Malestroit foi um conselheiro do Tribunal de Contas de França do século XVI, que ficou conhecido por explicar a inflação observada na sua época como sendo o resultado da desvalorização da unidade de conta, a libra  tornês, em relação ao ouro e à prata em que eram cunhadas as moedas usadas nas trocas. Argumentava o  conselheiro que os preços em unidades de conta de todos os bens, incluindo o ouro e a prata, subiam na mesma proporção, e daí resultava que a quantidade de ouro e de prata com que se compravam  os bens não se alterava. A conclusão de  Malestroit era um paradoxo, na medida em que admitia  que os preços de todos os bens podiam subir sem que fosse necessário o aumento da quantidade de moeda metálica, para alimentar essa subida. A favor da argumentação de Malestroit estava o facto de, em períodos anteriores, terem ocorrido processos de desmaterialização da moeda que consistiam em, com a mesma quantidade de metal precioso, cunhar moedas de v...

The dollar on the path to the end of its imperial era

  To get a preliminary understanding of the evolution of the American economy within the global context, we can rely on two important indicators: GDP growth and the current account balance. The GDP of the United States currently represents 26.3% of the world GDP, while China's accounts for 16.9%. In contrast, China’s GDP grew at an average annual rate of 13.27% between 2005 and 2020, while the American GDP only grew at an average rate of 3.2% during the same period. This implies that if this differential in average growth rates persists in the future, China's GDP will surpass that of the United States within five years. Based on the projected growth rates for the coming years, which are 1.7% for the U.S. and 5.2% for China, it is estimated that China will exceed the U.S. GDP around 2037, although some calculations suggest this could happen as early as 2035. It is also anticipated that once it surpasses the U.S., China will lead global GDP for the next forty years. Even more con...