A TAP: privatização, nacionalização e reprivatização, ou o regresso a um assunto que merece ser discutido
Há alguns meses, quando a questão da privatização, nacionalização, e previsível
reprivatização da TAP, estava em acesa discussão, tanto no meio político, como
no meio jornalístico, tentei descrever, através duma pequena metáfora, as
consequências da privatização levada a cabo
pelo XIX Governo Constitucional. Por qualquer circunstância, relembrei-me da metáfora, e entendi que o tema merecia que lhe desse novamente atenção. No momento da sua privatização anterior, a TAP necessitava de capital
para substituir dívida nas fontes de financiamento, dado que os encargos com
dívida excessiva estavam a agravar a dificuldade da empresa em obter resultados
de exploração positivos. O que aconteceu na época foi que a entrada de capital
não só foi insuficiente para estabilizar financeiramente a empresa, como, o que
ainda é pior, veio acompanhada do compromisso de aumento do endividamento para
compra de mais aviões. Com efeito, como é do conhecimento corrente, o accionista
estrangeiro da época, David Neeleman, dono de duas companhias aéreas, uma
canadiana e a brasileira Azul, fez um contrato de endividamento com a Boeing,
que depois transferiu para a TAP,
mediante o qual, umas largas
dezenas de aviões foram compradas à Boeing, por um determinado preço, tendo a construtora
pago uma comissão ao sr. Neeleman, com a qual ele entrou no capital da TAP. Deste
modo, é verdade que entrou dinheiro na TAP, e que talvez esta não conseguisse
um contrato tão favorável como conseguiu o sr. Neeleman, que tirou partido dessa
posição vantajosa para entrar na empresa. Não há, aparentemente, nada de
fraudulento nesta operação, e ao sr. Neeleman
é ainda atribuído o mérito de ter aberto novas rotas da TAP para os Estados
Unidos, as quais permitiram aumentar as vindas de turistas americanos a Portugal. Só
que, também é verdade que, feita desta forma, esta operação não cumpriu o seu objectivo fundamental que era o de estabilizar financeiramente a TAP, e, quando foi necessário aumentar capital, na sequência dos
prejuízos causados pela pandemia, o sr.
Neeleman não se mostrou disponível para o fazer, e ainda conseguiu ganhar umas
dezenas de milhões para ceder a sua posição no capital, quando o governo
seguinte decidiu nacionalizar a empresa.
Dado este historial, eu não tenho fundamentos para pôr em causa a boa fé dos governantes
envolvidos na venda de 51% do capital da TAP à parceria Neeleman-Pedrosa, mas
duvido da sua competência para fazerem negócios em que os interesses do Estado
fiquem devidamente acautelados, e de se fazerem assessorar de um conjunto de
pessoas capazes de os esclarecer devidamente sobre as previsíveis consequências
desses processos negociais. A situação é mais preocupante pelo facto de um dos
governantes que esteve envolvido nessa privatização, ser, como é previsível, a
figura central do novo processo de privatização que se avizinha, e falar, com
arrogância, do que fez e do que pretende fazer. Dá assim mostras de ter fraca percepção das características essenciais do contrato de
privatização da TAP que fez no passado, e das más consequências que delas
resultaram. Temos, por isso, razão para
ficar preocupados, porque as evidências mostram que continua a não ser a pessoa que reúne melhores condições para conduzir o próximo processo de privatização.
Segue abaixo a metáfora que, na altura
escrevi, e que incomodou alguns amigos meus, junto de quem, com alguma
precipitação, a divulguei.
Uma metáfora de táxis
O sr. Silva tem uma frota de dez táxis, mas está fortemente endividado,
pelo que precisa de novo capital para evitar que a sua empresa entre em
falência. O sr. Azulman, dono de outra empresa de táxis, propõe-se entrar no capital da empresa do sr.
Silva com duzentos mil euros. Só que os duzentos mil euros foram obtidos de empréstimo na
financeira da Renault, com o compromisso de serem comprados oito táxis,
compromisso que o sr. Azulman passa para a empresa do sr. Silva. É verdade que
o capital da empresa do sr. Silva aumentou. No entanto, não serve para melhorar
a cobertura do ativo já existente, como era necessário, pois traz associado o
aumento do ativo. Isto é, não se pode
dizer que a estabilidade financeira da empresa do sr. Silva melhore com esta
operação. Ao mesmo tempo, a empresa do sr. Azulman faz, com a empresa do sr.
Silva um contrato de aconselhamento para a expansão para novas áreas, pelo qual
recebe anualmente dez mil euros. Em resumo, o sr. Azulman, entra no capital da
empresa do sr . Silva sem meter um tostão do seu bolso, e assegurando, sem
qualquer risco, um rendimento anual de 10000 euros. Esta história é bem clara,
e outra, real, com algumas semelhanças com esta também o é.
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