O euro digital, o ministro grego, e a dissonância entre o discurso e a realidade
O ministro das Finanças da Grécia
e actual líder do Eurogrupo, Kyriakos Pierrakakis, declarou recentemente, num
Fórum do Banco Europeu de Investimento, que o euro digital, em preparação no
Banco Central Europeu, e que, segundo ele diz, começará a ser emitido em 2029, é uma iniciativa fundamental
para a capacidade competitiva da União Europeia e para a sua independência
estratégica. Quem, ao longo da última meia dúzia de anos, tiver seguido
cuidadosamente o processo preparatório
da criação de moeda digital, em curso no BCE e em muitas dezenas de bancos centrais do resto do mundo, não pode deixar de ficar surpreendido
ao ver um alto responsável europeu expressar tão ambiciosas expectativas acerca
dos efeitos dessa inovação. Vejamos em primeiro lugar do que falamos,
quando falamos do euro digital, que é um caso particular de moeda digital do
banco central ou, se quisermos usar a designação internacional corrente, Central
Bank Digital Currency (CBDC). O euro digital será uma moeda digital de retalho, destinada
sobretudo a populações que vivem em regiões isoladas, como as zonas insulares, e deficientemente
providas de serviços bancários, bem como
a pessoas com fracos recursos económicos e com dificuldade em aceder a contas
bancárias. A inovação tecnológica nos sistemas de pagamentos já ocorreu há
muito tempo na zona euro, e concretiza-se em infraestruturas como o TARGET2 e o
TIPS, através dos quais circula a moeda digital por grosso, emitida
pelos bancos centrais para ser usada pelos restantes bancos nos pagamentos
interbancários, como os que são requeridos pela movimentação dos depósitos à
ordem dos seus clientes. Por conseguinte, não falta, neste domínio, capacidade
competitiva à União Europeia. A importância da criação do euro digital de
retalho é outra, e decorre dos motivos que enunciei atrás: disponibilizar
meios de pagamento tecnologicamente
evoluídos a segmentos da população cujo nível de riqueza é muito baixo, ou que
vivem em localidades onde a banca comercial não considera lucrativo prestar
serviços. É a intenção de dar resposta a esta necessidade, uma das razões que está na base dos estudos e
experiências piloto para a implementação do euro digital, levados a cabo pelo
BCE ao longo dos últimos anos. E aqui
podemos colocar mais uma questão: porque não foi ainda criada esta nova forma
de moeda? Uma das explicações reside nos
seus custos de criação, considerados demasiado elevados comparativamente com os
benefícios, particularmente se vier a assentar numa infraestrutura própria, criada de raiz. Por isso, a solução que parece mais apreciada nos relatórios
técnicos, é da utilização das infraestruturas já existentes, com a prestação do
serviço do euro digital partilhada entre os bancos centrais e os restantes
bancos. O facto de que o euro digital irá ter um papel
marginal no sistema de pagamentos da
zona euro, conjuntamente com os seus custos de lançamento, e alguma indecisão
quanto ao modelo que virá a ser adoptado, explicam que esta forma de moeda
ainda não tenha sido lançada, apesar de longamente anunciada. Dado que a Grécia
tem uma parte da sua população dispersa em muitas pequenas ilhas do mar Egeu, é
natural que esse país venha a ser um dos principais beneficiários da criação do
euro digital, e sinta maior necessidade de que este seja implementado. Porque a
insularidade faz aumentar os custos de implementação da nova moeda, compreende-se
que o governo grego pretenda que a União Europeia, no seu todo, participe nesses
custos. Quando o ministro Pierrakakis esconde os interesses muito específicos do seu país por detrás
do argumento de que o euro digital dará
um contributo significativo para a soberania da Europa e a sua independência estratégica, está a fazer um
discurso dissonante com a realidade, porque esses são domínios onde, pela sua natureza e dimensão
reduzida, esta nova forma de moeda será,
em boa verdade, muito pouco
relevante. Esta dissonância entre os argumentos do
ministro grego e a realidade é mais um
indício da dificuldade que persiste nas instituições da União Europeia, em se
aceitarem discursos claros e transparentes.
Comentários
Enviar um comentário