As tarifas de Trump e o anúncio de uma nova ordem económica mundial



O objectivo normal das tarifas alfandegárias sobre produtos importados é o de assegurar, a alguns sectores da economia, a capacidade para manterem níveis de produção e de preços acima do que seriam capazes em situação de livre concorrência no mercado mundial. A eficácia das tarifas para a prossecução desse objectivo é maior nas indústrias novas e em crescimento, e resulta mais dificilmente nas indústrias em declínio, nas quais o incentivo a novos investimentos é fraco. As tarifas de Trump têm a característica peculiar de se aplicarem a todos os produtos importados pelos Estados Unidos, provenientes de um vasto número de países.  Através da sua tabela de tarifas, Trump pretende alcançar um objectivo extremamente ambicioso, que é o de corrigir o défice das transacções correntes dos EUA com o exterior, que persiste, de forma crónica, desde há mais de sessenta anos, e que anda actualmente em torno dos 800 mil milhões de dólares anuais, o que contrasta com os excedentes na China, de 400 mil milhões de dólares, e no conjunto dos países da União Europeia, de 120 mil milhões de dólares. O défice externo prolongado conduz ao enfraquecimento do valor externo da moeda do país, e a sua desvalorização é uma das vias para a correcção desse défice. O dólar é a excepção a esta regra, por servir de meio de reserva internacional desde o fim da II Guerra Mundial. Esse papel internacional do dólar conferiu aos Estados Unidos um poder monetário que nenhum outro país teve, o que lhes permite captar, com grande facilidade, capitais externos para financiar a sua economia, e contribui para que grande parte dos fluxos financeiros mundiais passem pelo seu mercado financeiro, o qual, conjuntamente com o mercado financeiro londrino, domina largamente a exportação mundial de serviços financeiros. Deste modo, a estabilidade do valor internacional do dólar assenta, em grande medida, no seu papel no sistema financeiro mundial, e é fracamente dependente do saldo da balança corrente americana. 
 
Por outro lado, uma depreciação acentuada do valor do dólar teria um impacto negativo no funcionamento do mercado financeiro americano, dadas as perdas que sofreriam os detentores nacionais e estrangeiros de ativos financeiros denominados nessa moeda. Assim sendo, é pouco provável que venhamos a assistir a uma política de desvalorização do dólar, que só poderia ser posta em prática pelo Sistema de Reserva Federal (banco central), e não pelo governo americano.

O facto de o sistema financeiro americano contribuir para a manutenção do valor estável do dólar não impede que o défice da balança corrente esteja a afectar negativamente a economia daquele país. Com efeito, o excesso das importações americanas sobre as suas exportações tem sido uma das causas do declínio de algumas das suas indústrias e do agravamento das assimetrias entre diferentes regiões dos Estados Unidos. Este contexto económico gera pressão para que o governo americano tente, de alguma forma, reduzir o défice da balança corrente, e estando excluído o recurso a uma desvalorização do dólar, é o proteccionismo, neste caso através da imposição de tarifas sobre as importações, que surge como via alternativa para atingir esse objectivo. Essas tarifas poderão contribuir, de diferentes formas, para a correcção do desequilíbrio externo da economia americana. Em primeiro lugar, ao implicarem a subida dos preços dos produtos importados, induzem os consumidores americanos a reduzir as suas importações. Ao mesmo tempo, as indústrias americanas ficam mais protegidas da concorrência externa, pelo que o seu mercado interno se alarga, o que cria condições para, pelo menos algumas delas, aumentarem a sua produção. Há também benefícios que as tarifas podem permitir a uma grande economia, e que dificilmente estão acessíveis a pequenas economias. Um deles resulta da importância que o mercado americano tem para muitos dos seus fornecedores externos, o que pode levá-los a baixarem os seus preços, suportando eles próprios uma parte do custo das tarifas. Outro desses benefícios é a possibilidade de empresas americanas de grande dimensão, tirando partido da protecção do seu mercado interno, ficarem em condições de subir os preços das suas exportações. Esta alteração dos termos de troca (subida dos preços das exportações e descida dos preços, antes da tarifa, dos produtos importados) também se traduz numa melhoria do saldo da balança corrente. Finalmente, as receitas fiscais provenientes das novas tarifas podem ser atribuídas como subsídios a  empresas exportadoras, o que aumenta a sua competitividade no mercado internacional, ou distribuídas como benefícios fiscais pelos consumidores, que assim ficarão com a sensação de que “America is wealthier again”, slogan usado por Trump no momento do anúncio das tarifas.

Quanto aos efeitos negativos das tarifas, a curto prazo, um deles é o risco de inflação resultante do aumento dos preços dos produtos importados. Esse risco, que é relativamente elevado numa pequena economia aberta, é mais reduzido numa economia de grande dimensão e mais fechada ao exterior como a dos EUA. Por outro lado, caso se desencadeie algum processo inflacionista causado pelas novas tarifas, o Sistema de Reserva Federal poderá facilmente pôr em prática medidas de política monetária que permitem combatê-lo rapidamente. Outro efeito negativo é o que afecta as indústrias exportadoras cujos produtos incorporam componentes importadas, e que vêem os seus custos de produção aumentar em resultado das tarifas. Não podemos também esquecer o risco de uma guerra tarifária,  se um número significativo de países retaliarem, criando ou aumento as suas próprias tarifas, o que levaria a uma grande instabilidade no comércio mundial.

No longo prazo, a correcção do desequilíbrio externo a que a economia americana não pode escapar, e de que agora se prepara para dar os primeiros passos, através do aumento do  proteccionismo, será um elemento presente na economia mundial ao longo das próximas décadas, que irá sendo perturbado por factores como as mudanças do ciclo económico,  a diminuição da importância do dólar no sistema monetário internacional, as alterações na estrutura das economias americana e mundial, as tensões e instabilidade geopolíticas, e factores políticos internos. As grandes mudanças na ordem económica mundial estão, portanto, ainda para vir, e aquilo a que assistimos agora é apenas o seu anúncio.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Divagando entre Eça de Queirós e Gilberto Freyre, a partir dum discurso presidencial

A União Europeia e os limites da sua capacidade de expansão