O dólar a caminho do fim da sua era imperial

 

Para termos uma ideia, ainda que sumária, do que será a evolução da economia americana no contexto mundial, podemo-nos apoiar em dois indicadores importantes: a evolução do PIB e o saldo da balança corrente. O PIB dos Estados Unidos representa actualmente 26,30% do PIB mundial,  e o da China 16,9%. Em contrapartida, o PIB chinês, cresceu, entre 2005 e 2020, à taxa média anual de 13,27%, enquanto o PIB americano cresceu apenas à taxa média de 3,2% durante esse mesmo período. Isto implica que, se este diferencial de taxas de crescimento médias se mantivesse no futuro, o PIB da China ultrapassaria o dos Estados Unidos dentro de 5 anos. Tomando como referência as taxas de crescimento previstas para os próximos anos, que são de 1,7% para os Estados Unidos  e 5,2% para a China, esta ultrapassará aquele por volta de 2037, embora alguns cálculos apontem para que tal aconteça em 2035.  Prevê-se também que, quando  ultrapassar os EUA, a China irá liderar o PIB mundial durante os quarenta anos seguintes. Ainda   mais preocupante para os Estados Unidos, e que explica melhor a sua política externa, é o saldo da balança corrente deste país, que apresenta um défice anual de 800000 milhões de dólares, enquanto o da China apresenta um excedente de 400000 milhões de dólares. A Rússia tinha, antes do início da guerra da Ucrânia, um excedente de 200000 milhões de dólares, e a União Europeia apresenta, no seu conjunto, um excedente de 120000 milhões de dólares. É no elevado défice externo que está o verdadeiro calcanhar de Aquiles da economia americana, o qual  Trump promete corrigir através do aumento das tarifas alfandegárias sobre os produtos que a América  importa da China, da Europa e de outras regiões do mundo. Paul Krugman, prémio Nobel da Economia,  escreveu, há poucos dias, que Trump está a  enganar os seus eleitores,  porque o aumento dessas tarifas será totalmente repercutido  nos preços que os consumidores e as empresas americanas irão pagar pelos produtos importados. Pode  acontecer, no entanto,  que a previsão de Krugman não se confirme ou, pelo menos, não tenha a intensidade que o autor lhe atribui,  se as empresas estrangeiras para as quais o mercado americano for importante se virem na contingência de acomodar, nos preços, pelo menos parte do aumento das tarifas, como anuncia Trump.  Falta saber o que este pretende fazer para aumentar as exportações dos Estados Unidos, a outra determinante do saldo da balança. Nos EUA este  saldo foi persistentemente deficitário  desde o início dos anos 60,  sendo raros os anos em que apresentou excedentes.   A capacidade de manter esse défice  durante um período de tal maneira longo, assentou no facto de o dólar servir de meio internacional de reserva desde os Acordos de Bretton Woods em 1944, e conseguir manter esse papel, mesmo após a suspensão da sua convertibilidade em ouro, em Agosto de  1971, e a sua entrada em flutuação livre, que ocorreu pouco depois. Durante as duas primeiras décadas que se seguiram à II Guerra Mundial, os Estados Unidos  tiveram condições óptimas para manter excedentes externos, através do  elevado volume das suas exportações, tanto para a Europa em fase de crescimento, e em que a economia alemã recuperava da destruição a que fora sujeita durante a guerra, como para os seus aliados no Pacífico. Essa fase terminou quando a Europa retomou a sua capacidade exportadora, sobretudo a Alemanha, e o mesmo aconteceu no Pacífico, depois do  acentuado surto de industrialização que  o Japão e a Coreia do Sul atravessaram. Deste modo, a situação inverteu-se,  e estes países, até então importadores de produtos americanos,  passaram a ser essencialmente exportadores para os Estados  Unidos,  o que teve, entre outras consequências, a de causar o declínio da indústria automóvel americana. Foram pois os aliados, e não os inimigos dos Estados Unidos, os primeiros causadores dos problemas económicos deste país.  Este novo contexto levou à acumulação da dívida externa americana, resultante da persistência do défice da balança corrente.  O papel internacional do dólar tem permitido aos Estados Unidos uma situação ímpar a nível mundial,  que é a de pagarem a sua dívida externa, que atingiu recentemente o valor de 26 biliões de dólares (triliões americanos),  com  a emissão da sua própria moeda. Esta posição vantajosa dos EUA no sistema monetário internacional explica a hostilidade com que encararam a criação do euro, por recearem  que vinha abalar os alicerces do domínio internacional do dólar. Se bem que, em relação às consequências do euro,  os piores receios americanos não se confirmaram, o futuro não deixa de ser preocupante quando a China lhes disputa a liderança da economia mundial. A situação é ainda mais complicada pelo facto de a China ser também o maior detentor internacional de dívida pública americana, a qual ronda actualmente os 24,5 biliões de dólares (triliões americanos) e representa cerca de 122,3%  do  PIB do país. Por isso,  os Estados Unidos estão a caminho do momento em que terão muita dificuldade em continuar a pagar a dívida externa com a sua própria moeda. A partir daí ver-se-ão na contingência de fazer a correcção forçada do saldo da sua balança corrente externa, o que será muito penoso para a economia americana e que irá gerar, seguramente, uma época de acentuada  tensão geopolítica. Assim, o declínio dos Estados Unidos da América não é o resultado da eleição de Trump, como imaginam muitos  europeus. Pelo contrário, essa eleição, feita à custa do slogan  Make America great again e de um conjunto de promessas dificilmente concretizáveis é, ela própria,  um dos sintomas desse declínio e do caminho para o fim da era imperial do dólar.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Divagando entre Eça de Queirós e Gilberto Freyre, a partir dum discurso presidencial

As tarifas de Trump e o anúncio de uma nova ordem económica mundial

A União Europeia e os limites da sua capacidade de expansão