Mensagens

As pensões de reforma: uma questão mal discutida

Imagem
  As mudanças nos regimes de pensões e na idade da reforma são temas que incendeiam facilmente o debate político, o que traz consigo o enviesamento da discussão para questões acessórias, ou de natureza temporária, cria alarido, e algum alarmismo que deveria ser evitado. A componente central do sistema de pensões é o chamado sistema de repartição, no qual as gerações activas fazem descontos para a segurança social, que lhes dão o direito a receber no futuro as suas reformas, mas que, quando são cobrados, servem para pagar as pensões dos reformados do presente. Foi assim que o sistema nasceu, nalguns países, como a Alemanha, no século XIX, noutros muito mais tarde, e que em Portugal só ganhou dimensão significativa com o regime democrático criado em 25 de Abril de 1974. Este modelo de pensões funciona bem num quadro demográfico em que a população aumenta, ou se mantém estacionária. Nesse contexto, a população activa é sempre superior à dos reformados, e o sistema de repartição ...

A Inteligência Artificial fará aumentar ou diminuir o emprego?

Imagem
Ao longo dos últimos dez anos, a IA passou, sucessivamente, das fases de machine learning e deep learning , à fase de IA generativa, até atingir, nos anos mais recentes, a fase industrial, em que é cada vez maior a sua utilização por empresas e administrações públicas. O seu uso na investigação científica acelera muito significativamente os processos de recolha e tratamento de dados, bem como de obtenção de resultados. Fiz, recentemente, várias experiências sobre esta vantagem da IA. Num dos casos, com um programa que construí há uns quarenta anos, cuja extensão corresponde a doze páginas A4, e que levava três a quatro horas a produzir cada matriz (50X50) de resultados. A plataforma GEMINI converteu, muito rapidamente o programa, da velha linguagem QUICKBASIC para a  moderna Python e, em cerca dum minuto, obtive a primeira matriz de resultados. Essa abordagem que, na época,  surgiu como inovadora, acabou por cair rapidamente em desuso, precisamente devido ao elevado...

O euro digital, o ministro grego, e a dissonância entre o discurso e a realidade

Imagem
  O ministro das Finanças da Grécia e actual líder do Eurogrupo, Kyriakos Pierrakakis, declarou recentemente, num Fórum do Banco Europeu de Investimento,   que o euro digital, em preparação   no   Banco Central Europeu, e que, segundo ele diz, começará   a ser emitido em 2029, é uma iniciativa fundamental para a capacidade competitiva da União Europeia e para a sua independência estratégica. Quem, ao longo da última meia dúzia de anos, tiver seguido cuidadosamente o processo preparatório   da criação de moeda digital, em curso no BCE e em muitas dezenas   de bancos centrais do resto do   mundo, não pode deixar de ficar surpreendido ao ver um alto responsável europeu expressar tão ambiciosas expectativas acerca dos efeitos dessa   inovação.   Vejamos em primeiro lugar do que falamos, quando falamos do euro digital, que é um caso particular de moeda digital do banco central ou,   se quisermos usar a   designação internacional cor...

Divagando entre Eça de Queirós e Gilberto Freyre, a partir dum discurso presidencial

Imagem
No seu último discurso de Ano Novo, enquanto Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa brindou-nos com a leitura dos últimos parágrafos do romance A Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós. Ouvir essa leitura despertou o meu interesse por várias razões, uma das quais é o facto de o personagem central desse romance, Gonçalo Mendes Ramires, ser a figura da obra queirosiana que me inspirou mais simpatia, bem mais do que o diletante personagem central de Os Maias, ou o afrancesado Jacinto, da Cidade e as Serras. Gonçalo Ramires é um descendente da antiga e decadente aristocracia rural, que se defronta com o dilema entre casar com uma viúva nova-rica, para se proteger da ruína, ou optar por aquilo que podemos designar, em termos aristotélicos, uma vida boa, mas com privações materiais. Outra particularidade que, no plano pessoal, me liga a esse romance, está no facto de um colega inglês, professor numa universidade americana, que costumava encontrar em congressos da nossa área co...

A União Europeia e os limites da sua capacidade de expansão

  O bom funcionamento de qualquer união económica depende, em larga medida, da sua capacidade gravitacional, isto é, da força de atracção exercida por uma economia de grande dimensão que funcione como centro de gravidade dos fluxos comerciais e financeiros da união. Essa ideia é sustentada pelo modelo gravitacional do comércio internacional desenvolvido pelos economistas Elhanan Helpman e Paul Krugman. Este  modelo toma como ponto de partida a verificação de que o volume de trocas entre dois países é tanto maior quanto maior for a dimensão das suas economias e quanto menor for a distância entre elas. No caso da União Europeia, o centro gravitacional é a economia alemã, e o volume de transações comerciais e de fluxos de capitais  entre a Alemanha e os restantes Países-membros é o elemento fundamental para a manutenção da estabilidade do espaço europeu. Os fluxos comerciais e financeiros bilaterais entre os restantes países também são importantes para a manutenção da coesã...

O mercado da habitação: as anomalias e a intervenção do Estado

Imagem
  O mercado da habitação tornou-se, nas últimas décadas, um dos sectores mais tensos e controversos das economias contemporâneas. Em muitas cidades os preços das casas e das rendas cresceram a ritmos bem superiores aos rendimentos médios das famílias, contribuindo para fenómenos de exclusão habitacional, sobrecarga financeira e deslocamento de populações de baixos rendimentos para zonas periféricas. São vários os factores que fazem com que  no mercado da habitação se observe um desequilíbrio estrutural caracterizado pela escassez de oferta, situação que tende a prolongar-se por largos períodos, ao contrário de outros mercados de bens e serviços, onde o ajustamento entre oferta e procura ocorre com relativa rapidez. A construção de novas habitações implica um longo ciclo de planeamento, licenciamento e execução, que dura vários anos. Isto significa que, mesmo quando há sinais claros de aumento da procura, a oferta não consegue responder de imediato. A rigidez e atraso na respos...

As tarifas de Trump e o anúncio de uma nova ordem económica mundial

Imagem
O objectivo normal das tarifas alfandegárias sobre produtos importados é o de assegurar, a alguns sectores da economia, a capacidade para manterem níveis de produção e de preços acima do que seriam capazes em situação de livre concorrência no mercado mundial. A eficácia das tarifas para a prossecução desse objectivo é maior nas indústrias novas e em crescimento, e resulta mais dificilmente nas indústrias em declínio, nas quais o incentivo a novos investimentos é fraco. As tarifas de Trump têm a característica peculiar de se aplicarem a todos os produtos importados pelos Estados Unidos, provenientes de um vasto número de países.  Através da sua tabela de tarifas, Trump pretende alcançar um objectivo extremamente ambicioso, que é o de corrigir o défice das transacções correntes dos EUA com o exterior, que persiste, de forma crónica, desde há mais de sessenta anos, e que anda actualmente em torno dos 800 mil milhões de dólares anuais, o que contrasta com os excedentes na China, de 4...

Os bancos e os seus devedores numa visão shakespeareana

Imagem
Shylock, personagem do Mercador de Veneza  de Shakespeare    O Mercador de Veneza é uma   comédia de Shakespeare, ou talvez seja também uma tragédia, dependendo da condição em que   cada um dos seus personagens   se situa no drama, que merece ser analisada à luz da moderna teoria económica. Comecemos pelo contexto histórico. O enredo decorre em Veneza, no século XVI. Nessa época, a zona de prosperidade na Europa  deslocava-se da bacia do Mediterrâneo para a Flandres, Inglaterra e norte da Alemanha. Essas regiões da Europa eram mais férteis do que as da Europa mediterrânica, o que favorecia o maior crescimento demográfico. Por outro lado, as grandes viagens marítimas iniciadas por portugueses e espanhóis, seguidos pelos ingleses e holandeses,    contribuíram para dar uma dimensão intercontinental às grandes feiras e   portos existentes no norte da Europa, bem como para o ressurgimento da actividade bancária, donde emergiram os primeiros g...

Confiar nos economistas é entregar a alma ao diabo

Imagem
  Reencontrei um texto meu, saído no Público em 2015,  no qual explicava as vantagens que a extensão do prazo das dívidas apresentava,  no contexto da  época, tanto para os devedores como para os bancos. O texto em si, é hoje apenas uma curiosidade histórica. O que eu achei divertido foi reler os comentários, que devem servir  para,   quem  for  economista, pensar bem antes de dar conselhos a alguém. Aqui fica o texto, seguido dos três  comentários. A extensão do prazo das dívidas aos bancos, o aumento dos  spreads  e a racionalidade económica O aumento de diversos tipos de risco, que tem ocorrido no crédito hipotecário, pode sugerir que há um propósito menos evidente nesta iniciativa da banca.  Esta iniciativa é vista, por alguns sectores de opinião, como um expediente desleal através do qual os bancos visariam apenas aumentar os seus ganhos à custa dos devedores, os quais só terão a perder com a alteração dos contra...