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A mostrar mensagens de 2025

A União Europeia e os limites da sua capacidade de expansão

  O bom funcionamento de qualquer união económica depende, em larga medida, da sua capacidade gravitacional, isto é, da força de atracção exercida por uma economia de grande dimensão que funcione como centro de gravidade dos fluxos comerciais e financeiros da união. Essa ideia é sustentada pelo modelo gravitacional do comércio internacional desenvolvido pelos economistas Elhanan Helpman e Paul Krugman. Este  modelo toma como ponto de partida a verificação de que o volume de trocas entre dois países é tanto maior quanto maior for a dimensão das suas economias e quanto menor for a distância entre elas. No caso da União Europeia, o centro gravitacional é a economia alemã, e o volume de transações comerciais e de fluxos de capitais  entre a Alemanha e os restantes Países-membros é o elemento fundamental para a manutenção da estabilidade do espaço europeu. Os fluxos comerciais e financeiros bilaterais entre os restantes países também são importantes para a manutenção da coesã...

O mercado da habitação: as anomalias e a intervenção do Estado

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  O mercado da habitação tornou-se, nas últimas décadas, um dos sectores mais tensos e controversos das economias contemporâneas. Em muitas cidades os preços das casas e das rendas cresceram a ritmos bem superiores aos rendimentos médios das famílias, contribuindo para fenómenos de exclusão habitacional, sobrecarga financeira e deslocamento de populações de baixos rendimentos para zonas periféricas. São vários os factores que fazem com que  no mercado da habitação se observe um desequilíbrio estrutural caracterizado pela escassez de oferta, situação que tende a prolongar-se por largos períodos, ao contrário de outros mercados de bens e serviços, onde o ajustamento entre oferta e procura ocorre com relativa rapidez. A construção de novas habitações implica um longo ciclo de planeamento, licenciamento e execução, que dura vários anos. Isto significa que, mesmo quando há sinais claros de aumento da procura, a oferta não consegue responder de imediato. A rigidez e atraso na respos...

As tarifas de Trump e o anúncio de uma nova ordem económica mundial

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O objectivo normal das tarifas alfandegárias sobre produtos importados é o de assegurar, a alguns sectores da economia, a capacidade para manterem níveis de produção e de preços acima do que seriam capazes em situação de livre concorrência no mercado mundial. A eficácia das tarifas para a prossecução desse objectivo é maior nas indústrias novas e em crescimento, e resulta mais dificilmente nas indústrias em declínio, nas quais o incentivo a novos investimentos é fraco. As tarifas de Trump têm a característica peculiar de se aplicarem a todos os produtos importados pelos Estados Unidos, provenientes de um vasto número de países.  Através da sua tabela de tarifas, Trump pretende alcançar um objectivo extremamente ambicioso, que é o de corrigir o défice das transacções correntes dos EUA com o exterior, que persiste, de forma crónica, desde há mais de sessenta anos, e que anda actualmente em torno dos 800 mil milhões de dólares anuais, o que contrasta com os excedentes na China, de 4...

Os bancos e os seus devedores numa visão shakespeareana

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Shylock, personagem do Mercador de Veneza  de Shakespeare    O Mercador de Veneza é uma   comédia de Shakespeare, ou talvez seja também uma tragédia, dependendo da condição em que   cada um dos seus personagens   se situa no drama, que merece ser analisada à luz da moderna teoria económica. Comecemos pelo contexto histórico. O enredo decorre em Veneza, no século XVI. Nessa época, a zona de prosperidade na Europa  deslocava-se da bacia do Mediterrâneo para a Flandres, Inglaterra e norte da Alemanha. Essas regiões da Europa eram mais férteis do que as da Europa mediterrânica, o que favorecia o maior crescimento demográfico. Por outro lado, as grandes viagens marítimas iniciadas por portugueses e espanhóis, seguidos pelos ingleses e holandeses,    contribuíram para dar uma dimensão intercontinental às grandes feiras e   portos existentes no norte da Europa, bem como para o ressurgimento da actividade bancária, donde emergiram os primeiros g...

Confiar nos economistas é entregar a alma ao diabo

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  Reencontrei um texto meu, saído no Público em 2015,  no qual explicava as vantagens que a extensão do prazo das dívidas apresentava,  no contexto da  época, tanto para os devedores como para os bancos. O texto em si, é hoje apenas uma curiosidade histórica. O que eu achei divertido foi reler os comentários, que devem servir  para,   quem  for  economista, pensar bem antes de dar conselhos a alguém. Aqui fica o texto, seguido dos três  comentários. A extensão do prazo das dívidas aos bancos, o aumento dos  spreads  e a racionalidade económica O aumento de diversos tipos de risco, que tem ocorrido no crédito hipotecário, pode sugerir que há um propósito menos evidente nesta iniciativa da banca.  Esta iniciativa é vista, por alguns sectores de opinião, como um expediente desleal através do qual os bancos visariam apenas aumentar os seus ganhos à custa dos devedores, os quais só terão a perder com a alteração dos contra...

O Relatório Draghi e a Europa do nosso descontentamento

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                                                         O relatório de   Mario Draghi, The Future of European Competitiveness , publicado em Setembro passado, é   invocado como o documento orientador para que a União Europeia atinja os   objectivos de colmatar o atraso   de inovação que a separa dos Estados Unidos e da China, dar seguimento ao processo de descarbonização e de   aumento da competitividade, e reduzir a sua dependência face aos Estados Unidos em matéria de defesa.   Esse relatório sustenta que o atraso tecnológico da Europa face aos Estados Unidos e à China se observa essencialmente no domínio das tecnologias de informação e computação, e não   tanto nos restantes sectores de actividade. No entanto, na comparação entre a produtividade da União Europeia e os EUA, para um conjunto de vinte e um se...

A TAP: privatização, nacionalização e reprivatização, ou o regresso a um assunto que merece ser discutido

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  Há alguns meses, quando a questão da privatização, nacionalização, e previsível reprivatização da TAP, estava em acesa discussão, tanto no meio político, como no meio jornalístico, tentei descrever, através duma pequena metáfora, as consequências da privatização  levada a cabo pelo XIX Governo Constitucional. Por qualquer circunstância, relembrei-me da metáfora,  e entendi que o tema merecia que lhe desse novamente atenção.  No momento da sua privatização anterior, a TAP necessitava de capital para substituir dívida nas fontes de financiamento, dado que os encargos com dívida excessiva estavam a agravar a dificuldade da empresa em obter resultados de exploração positivos. O que aconteceu na época foi que a entrada de capital não só foi insuficiente para estabilizar financeiramente a empresa, como, o que ainda é pior, veio acompanhada do compromisso de aumento do endividamento para compra de mais aviões. Com efeito, como é do conhecimento corrente, o accionista estr...