As dificuldades do Banco de Fomento e as alternativas desperdiçadas
O sistema bancário português dispõe actualmente de capital humano, recursos materiais e capacidade financeira suficiente para prover à procura de financiamento na economia portuguesa. Os bancos portugueses satisfazem adequadamente os requisitos de capital e liquidez que lhes são impostos, no quadro dos Acordos de Basileia, pela VI Diretiva Europeia de Requisitos de Capital e normas complementares do BCE e Banco de Portugal. Com excepção do problemático Novo Banco, todos os restantes grandes bancos têm vindo a regressar, de forma consolidada, a um período de lucros, tendo já ultrapassado o período de prejuízos que se seguiu à crise financeira e à crise da dívida.
Dado que na União Europeia é seguido o princípio do banco universal, todos
os bancos estão sujeitos às mesmas regras e restrições, independentemente do
propósito com que são criados. É por isso que os bancos especializados que
encontramos em Portugal são instituições de menor dimensão, pertencentes a
grupos bancários e que, para além de operações de carteira de ativos
financeiros, suas e da clientela, contribuem para a “titularização” (securitization)
da carteira do banco-mãe.
Um banco totalmente independente, como o Banco de Fomento, ainda que
especializado, é uma estrutura complexa, o que significa que deverá ter
praticamente o mesmo número de departamentos que um banco universal. Dado que, para todos os departamentos, o
banco necessita de pessoal qualificado e com experiência na sua área, o arranque
dum banco deste tipo é, como a realidade dos factos está a demonstrar, muito
custoso e lento, uma vez que não surgiu ancorado num banco já existente, como
aconteceu com os outros bancos especializados existentes no nosso sistema financeiro.
Complementarmente, o Banco de Fomento deveria ter, desde o início, um
grande volume de atividade para, tendo em conta os custos fixos inerentes à sua
escala, evitar ter prejuízo nos primeiros anos de exercício. Este objetivo é
difícil de alcançar, como o demonstra o caso do Instituto Financeiro de
Desenvolvimento, criado há alguns anos para gerir fundos europeus, e que,
apesar de ter uma dimensão reduzida, não conseguiu atingir um volume de
atividade que lhe permitisse ter lucros.
Fazendo a comparação com o que aconteceu noutros países que criaram
instituições equivalentes ao Banco de Fomento, pelo menos no caso da França, o Banque
Publique d’Investissement, surgiu ancorado em instituições pré-existentes,
através dum processo que durou vários
anos, mas que, no entanto, não deixou
de ser objeto de alguma controvérsia. Nos outros casos em que também foi
adoptada esta solução, trata-se de países como a Alemanha, Espanha e Itália,
cujos sistemas bancários, tal como o da França, têm dimensão muito grande, onde
é relativamente fácil recrutar capital humano altamente qualificado sem, ao
mesmo tempo, “descapitalizar” desse recurso as restantes instituições do
sistema. Esse não é o caso de Portugal cujo sistema bancário tem uma dimensão
bastante menor do que os desses países.
A criação de um banco de fomento de raiz é, no momento presente, custosa,
tanto pelo contexto global do sistema financeiro, como pelo impacto da
alteração substancial do quadro regulatório ocorrida ao longo dos últimos dez
anos.
O sistema bancário irlandês, com
dimensão próxima do nosso, optou pela criação dum fundo soberano, o Irish
Strategic Investment Fund. Um fundo soberano tem maior flexibilidade do que
um banco para responder à necessidade de mudança nos instrumentos de
financiamento utilizados e à sua maior diversificação. Em contrapartida, tem
maior dificuldade em manter relações de clientela, sob a forma de crédito, com
um número muito elevado de empresas. No entanto, para responder a este último
problema, o fundo utilizará a intermediação dos bancos já existentes.
O fundo soberano teria como fontes de financiamento os fundos europeus e
outros (não excluindo a possibilidade de efetuar as suas próprias emissões de
dívida), os quais canalizaria para as empresas sob a forma de crédito concedido
por intermédio dos bancos já existentes, e de participações de capital através
de sociedades de capital de risco detidas pelo fundo. Este tipo de instituição
consegue, deste modo, ter ganhos de escala significativamente superiores aos de
uma instituição como o Banco de Fomento e, ao mesmo tempo, permite atingir mais
facilmente o objetivo de diversificar as formas como se pretende fazer chegar o
financiamento às empresas.
O fundo soberano canalizaria fundos
para os outros bancos do sistema, os quais, por sua vez, fazem a seleção do
crédito às empresas, e correm o respetivo risco, com excepção da parte que
estiver coberta por garantia de crédito. O modelo de fundo soberano em vez de
banco de fomento teria, por conseguinte, a vantagem de aproveitar a estrutura
já existente nos bancos, as competências que estes têm para a seleção de
crédito, e as suas relações de clientela. Quanto aos instrumentos
financeiros a utilizar para a canalização dos recursos financeiros para o
sistema bancário, as soluções mais
recomendáveis são as de que esse financiamento se faça através de
crédito concedido pelo FS aos bancos, ou
da emissão de covered bonds por parte destes. Note-se em primeiro lugar que, tendo
associados ativos de garantia, as covered bonds são mais seguras para a
entidade financiadora do que as obrigações convertíveis, como as de uma
operação do Banco de Fomento que veio para a ribalta há poucos dias. As covered
bonds têm vantagens adicionais para as duas partes. Para os bancos têm a
vantagem de aliviar o risco de crédito que concedem, passando parte dele para o
detentor das covered bonds. Para o fundo soberano têm a vantagem de
consistirem em instrumentos negociáveis nos mercados financeiros, a que o fundo
poderá recorrer, se lhe for conveniente.
A reduzida dimensão do capital próprio é um problema crónico que afecta um
número elevado de empresas portuguesas, sobretudo as de pequena e média
dimensão. A escassez de capital próprio limita a capacidade de crescimento das
empresas, o que é particularmente negativo quando estas são fundadas por jovens
quadros com elevada qualificação e capacidade de inovação. As sociedades de
capital de risco são o tipo de instituição financeira mais adequado para ajudar
as empresas portuguesas a ultrapassar esta limitação.
Nos últimos quarenta anos houve uma ou duas tentativas de fazer desenvolver
o setor do capital de risco. No entanto, o seu impacto foi muito limitado e não
deixou sequências. Entre as possíveis causas desse insucesso está a resistência
de muitas empresas a aceitarem sócios fora do pequeno círculo da família dos
seus fundadores. Dado que essa resistência é uma das causas da reduzida
longevidade de muitas dessas empresas, teria sido importante que, no âmbito do
PRR, se tivessem feito emergir várias sociedades de capital de risco com
capacidade para se consolidarem no nosso sistema financeiro. Várias vias podem
ser utilizadas para garantir que a criação de sociedades de capital de risco
tem sucesso, e se torna dos melhores instrumentos para dotar as empresas
portuguesas de capital que lhes permita ganhar longevidade, capacidade de
inovação, e aumentarem as suas quotas nos mercados internacionais dos seus
sectores.
As sociedades de capital de risco
também podem ser especializadas, e há várias soluções possíveis para prosseguir
esse objectivo sem que qualquer uma delas exclua as restantes. Uma solução
consiste em criar sociedades de capital de risco especializadas por setores de
atividade. Por exemplo, uma SCR para o setor têxtil, vestuário e calçado, uma SCR
para o setor da metalomecânica, uma SCR para a agro-indústria e florestas, etc..
Outra solução consistirá em criar SCR especializadas por objetivos: uma para as
empresas exportadoras, outra para as empresas de inovação tecnológica, outra
para os setores voltados para a poupança energética e proteção ambiental. Provavelmente a solução final deverá
consistir não na aplicação de uma única linha de abordagem, mas numa combinação
de várias, e terá ainda como critério complementar a escolha do número adequado
de SCR a criar.
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