Divagando entre Eça de Queirós e Gilberto Freyre, a partir dum discurso presidencial
No seu último discurso de Ano Novo, enquanto Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa brindou-nos com a leitura dos últimos parágrafos do romance A Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós. Ouvir essa leitura despertou o meu interesse por várias razões, uma das quais é o facto de o personagem central desse romance, Gonçalo Mendes Ramires, ser a figura da obra queirosiana que me inspirou mais simpatia, bem mais do que o diletante personagem central de Os Maias, ou o afrancesado Jacinto, da Cidade e as Serras. Gonçalo Ramires é um descendente da antiga e decadente aristocracia rural, que se defronta com o dilema entre casar com uma viúva nova-rica, para se proteger da ruína, ou optar por aquilo que podemos designar, em termos aristotélicos, uma vida boa, mas com privações materiais. Outra particularidade que, no plano pessoal, me liga a esse romance, está no facto de um colega inglês, professor numa universidade americana, que costumava encontrar em congressos da nossa área co...